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Clã Motta: décadas de poder, denúncias e alianças que blindam a velha política na Paraíba

  • Redação
  • 13 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

A política de Patos, no sertão da Paraíba, é marcada por um domínio familiar que atravessa gerações. Desde os anos 1950, a família Motta comanda a prefeitura, influencia a Assembleia Legislativa e mantém espaço no Congresso Nacional. Hoje liderado pelo deputado federal Hugo Motta (Republicanos-PB), o clã carrega uma herança de mandatos, investigações e acusações que expõem como funciona o jogo político brasileiro: poder concentrado, redes de parentesco e processos que, quase sempre, terminam sem punição efetiva.


Em Patos, cerca de 39% da população depende do Bolsa Família — cenário que, na prática, alimenta um curral eleitoral tradicional. Em um município com pouco mais de 107 mil habitantes, a hegemonia política dos Motta se mantém pelo controle de cargos e alianças. Hugo é filho de Nabor Wanderley (prefeito em dois períodos), neto de Nabor Wanderley da Nóbrega (prefeito nos anos 50) e de Francisca Motta (prefeita de 2013 a 2016). Todos já tiveram o nome ligado a casos de corrupção ou mau uso de recursos públicos.


Operação Veiculação: R$ 11 milhões em contratos suspeitos

O episódio mais rumoroso veio em 2016, com a Operação Veiculação da Polícia Federal. O inquérito revelou suposto esquema de fraudes e superfaturamento na locação de veículos da Prefeitura de Patos, envolvendo recursos do Fundeb, PNATE e Pró-Jovem Trabalhador. O prejuízo estimado foi de R$ 11 milhões.


Três membros diretos da família de Hugo Motta foram citados:

  • Ilana Motta (mãe) – então chefe de gabinete, presa preventivamente e liberada dias depois; absolvida em 2021.

  • Francisca Motta (avó) – afastada do cargo de prefeita; também absolvida.

  • Renê Trigueiro (padrasto) – prefeito de São José de Espinharas, preso e posteriormente liberado.


As absolvições não apagaram a associação do sobrenome Motta à velha prática do patrimonialismo.


Nabor Wanderley: delações e contratos milionários

O pai de Hugo, Nabor Wanderley, chegou a ser condenado por improbidade administrativa em 2013, mas conseguiu reverter a decisão e voltar à prefeitura. Em delação de 2016, o empresário José Aloysio da Costa Machado Neto afirmou que Nabor recebia 10% de propina em contratos de terraplanagem, envolvendo também Ilana, Francisca e até o próprio Hugo. As acusações, porém, nunca avançaram na Justiça.


Mais recentemente, a Operação Outside investigou fraudes em contrato de R$ 6 milhões para obras viárias assinadas no último dia de sua gestão em 2020.


Sogros na mira e ligação com Lira

Em 2019, os sogros de Hugo, Severino Medeiros e Maria Eliane de Araújo Medeiros, foram denunciados por fraudes e corrupção, com prejuízo estimado em R$ 4,8 milhões.

Além da força local, Hugo mantém aliança com Arthur Lira (PP-AL), outro expoente da política de clãs no Nordeste. Lira, que também coleciona investigações — da Lava Jato à Operação Hefesto —, foi peça-chave para manter o controle da Câmara e articular pautas de interesse do sistema.


Promessas à direita, alinhamento com o STF

Apesar de ter contado com apoio de parlamentares de direita para se eleger à presidência da Câmara, Hugo Motta não cumpriu o compromisso de pautar a anistia dos atos de 8 de janeiro de 2023. Mantém uma relação cautelosa com o Supremo Tribunal Federal, onde sabe que qualquer afronta pode custar caro.

Para agradar o eleitorado conservador, apoiou o fim do foro privilegiado — mas especialistas apontam que a proposta dificilmente passará pelo próprio STF, servindo apenas de “cortina de fumaça”.


O sistema que se retroalimenta

No Brasil, quem desafia o STF e a elite política paga o preço. Já quem joga conforme as regras, se mantém. No caso dos Motta, o enredo é o mesmo: décadas de poder, alianças estratégicas e investigações que, no fim, se perdem no tempo. Enquanto isso, a população continua refém de um modelo político onde o interesse popular é a última prioridade.

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